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domingo, 1 de novembro de 2009

O GATO ELÉTRICO



M.S.M., sexo masculino, maior, comerciante, sempre fôra benquisto em seu círculo social.

Boa pessoa, tinha lá seus defeitos... Às vezes, entregava-se a prazeres mundanos: drinks

a mais da conta, jogo, mulheres.., até uma droguinha..quando pintava, não deixava passar

em brancas nuvens. E assim foi viciando. A coisa se impunha sem que se desse conta. Com

o passar do tempo, sua sensibilidade aos entorpecentes foi mostrando a cara. Teve reações

graves, até que um quadro típico instalou-se. Foi quando sentiu necessidade de tratamento.

Internou-se de livre e espontânea vontade, tal era o sofrimento que vinha experimentando.

Apesar de seriamente afetado, lutava pelo retorno. Via ameaçado o elo de ligação com as

pessoas, com a realidade. Via-se diante do inelutável. O tempo passava devagar. Após me

ses internado numa clínica psiquiátrica, começou a apresentar sinais de melhora. Foi quan

do lhe deram alta. Começava o processo de reintegração. Sentia-se inseguro, temeroso, so

cialmente deslocado. Depressão e ansiedade severas...dominavam-no. Lutava para não es

corregar; sabia que não teria volta. Passavam-se os dias; nada mudava. Ligou certa tarde

para um amigo que conhecia seu problema. Possuia um sítio onde M.S.M. costumava fre

quentar no passado. Apesar de nunca ter tido ligação com drogas, mesmo assim sempre

mantiveram amizade sincera e respeito mútuo. Cansara de alertá-lo para o mal que aqui

lo lhe causava, mas de nada adiantou. Durante a conversa, pediu ao amigo se poderia pas

sar algum tempo na propriedade, visto que lhe seria terapêutico o contato com a nature

za. Na propriedade havia duas casas modestas; seria possível que uma delas estivesse va

ga. Claro que sim, M. , respondeu-lhe. Voce pode ficar na que está desocupada, e terá a

companhia do caseiro, que se hospeda na outra. M.S. agradeceu-lhe a hospitalidade, dizen

do que partiria na manhã seguinte. O esquema estava montado; infelizmente fracassara.

Naquela noite comprou a quantidade que considerava suficiente. Saiu logo ao amanhecer.

Lá chegando, fez breve contato com o empregado, dirigindo-se em seguida ao local onde

ficaria hospedado. Era cedo ainda. Apanhou a mala, a muamba, e entrou. Abriu as janelas

e foi se acomodando. Vestiu short e camiseta, depois sentou-se na varanda. Acendeu um

cigarro, e ali permaneceu bom tempo, fitando o vazio. Da casa do empregado vinha um a

gradável aroma de alimento fresco. Logo convidou-o para almoçar. Aceitou...embora não

estivesse com o menor apetite. Após o almoço resolveu deitar-se. A cabeça não se desliga

va da droga; parecia não haver lugar para mais nada. Passava das 17 hs. Levantou-se, pe

gando uma porção do entorpecente. Andando devagar, seguiu por um caminho em meio

à vegetação. Passou por um milharal, continuando até dar num riacho. Ali parou, olhando

o movimento da correnteza. De vez em quando o ruído da bicharada quebrava o silêncio

do lugar. Consumiu certa quantidade da droga, não tardando os primeiros efeitos. As sen

sações agradáveis vinham-lhe em forma de lembrança, predominando um mal estar ge

neralizado. Enquanto olhava fixamente um determinado ponto no chão, viu desenhar-se

uma cobra, começando pelo focinho, formando o contorno da cabeça, e o resto do corpo a

brindo-se como um leque, à medida em que se prolongava. Durou alguns segundos...de

pois desapareceu. A caminho de volta, já quase escuro, sentia-se desolado, fora de sinto

nia. Chegando à casa, deitou-se. Os pensamentos vinham-lhe de forma desordenada...;

não conseguia mentalizar nada. Convidado a jantar, recusou, dizendo-se sem apetite. An

siava pelo amanhecer, pela volta. Passavam-se as horas; não era capaz de conciliar o so

no. Fazia calor; resolveu acomodar-se no chão de piso frio. Virava-se dum lado, do outro,

e nada. Estava extremamente excitado. Em dado momento viu sob a cama a imagem de

um pequeno felino, sentado, com as orelhas em pé, atento. Seus pelos espessos e arrepia

dos eram reluzentes. Os olhos pareciam duas bolinhas de fogo. Da mesma forma, durou

um certo instante...e sumiu. Assim que amanheceu deixou o sítio sem se despedir. A ca

minho de casa, já na pista, em alta velocidade, derrapou numa curva, perdendo o contro

le do carro. Capotou várias vezes até se chocar contra uma pilastra. Teve morte instan

tânea. M.S.M. conhecia bem a estrada! Suicídio!?

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