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terça-feira, 27 de outubro de 2009

UM MOMENTO NA ETERNIDADE


Aos poucos ia ficando atrás o negrume da estrada. O muleiro, montado numa besta atrelada à carga, por corda, transportava seu pequeno empório sobre o dorso do animal. Acabando de chegar a determinado vilarejo, ainda madrugada alta, seguia por uma rua sem calçamento..até que encontrou paralelepípedos. Reduziu a velocidade , continuando a marcha. Havia ainda um

pouco de ração, mas líquido, só um restinho no cantil. Resolveu parar por alguns instantes a fim

de que o animal descansasse, dando-lhe o que ainda restava prá comer. Depois prosseguiu em

busca de água. Ergueu os olhos para o céu; pelo brilho das estrelas estava ainda longe o amanhe

cer. Em dado ponto, não muito distante, notou luzes quebrando a escuridão. Já mais próximo, percebeu pessoas na calçada; algo acontecia na casa. Numa biboca dessa, a essa hora, luzes, gente na rua, silêncio..; pensou consigo: dou meu comboio de graça se for festa. E achei água, pensou tambem. Ao passar em frente simulou um olhar consternado, seguindo mais devagar. Ainda na

mesma quadra havia muito capim em terrenos baldios. Entrou num deles, desceu do animal,

deixando-o pastar à vontade, e se dirigiu ao velório, em sinal de respeito. Os olhares o evitavam.

Seu propósito no entanto fingia evocá-los em dobro. Água!!, meus amigos, disse-lhes em pensamento. Contornou o grupo, parando em frente. Era uma casa simples, predominava luz fra

ca e amarelada. O portão era baixo, feito com ripas de madeira escura. Muro branco, da mesma

altura, descorado e encardido pelo tempo. Após o portão, tres degraus e uma passarela dividindo

o jardim em dois canteiros com roseiras. Uma areazinha circundada por muretas, e dois pilares

de tijolos sustentando a cobertura. À esquerda, uma janela aberta mostrava o guarda-roupas e

parte da cabeceira da cama. Uma única porta de entrada e um longo corredor indo até os fundos.

Aqui, dois degraus, uma pequena área de serviços, e finalmente o quintal. Em seguida à porta de

entrada, uma segunda na parede esquerda indicava ser a do quarto. À frente, do lado oposto, o banheiro. Adiante, a copa, situada à direita, onde a luz era mais densa. Seu leve movimento con

firmava presença de velas. Reaparecia depois o corredor até terminar na cozinha, situada em po

sição oposta a do compartimento anterior. Pia, fogão, geladeira, ocupavam o lado esquerdo. O pi

so da casa era todo em vermelhão. Fachada marrom, janela rosada, e as paredes internas branco

O portão estava aberto; decidiu entrar. Tirou o chapéu, sacudiu-o na perna prá tirar o pó, e, des

cendo os degraus, foi adentrando educadamente. Da cozinha chegava-lhe às narinas um agradável aroma de café fresco. Seguiu pelo corredor até chegar na copa. Diante do que via, esta

cou. Correu os olhos pelo ambiente: pessoas sentadas em cadeiras encostadas nas paredes, vela-

vam. No centro, um corpo (parecia ser de criança), jazia num pequeno caixão. O rosto era escu-

ro, as mãos e o restante as flores encobriam. Sentada proximo à cabeceira do esquife, uma senho

ra olhava inconsolável o defunto. O muleiro foi se aproximando até chegar bem perto. Curvando-

se por sobre o cadáver, dirigiu-se à mulher, perguntando-lhe: Era filho? Como assim, Sr.!? Não

se trata de criança. Era meu marido. Ficou pequeno assim porque morreu carbonizado. Peço-lhe

então que me desculpe, ao mesmo tempo tempo em que manifesto meus sentimentos. O Sr. o co

nhecia? Não..não; estou por aqui de passagem. Sou ambulante; vendo coisas perecíveis. Meu ani

mal está lá fora pastando, e morrendo de sede. Na varanda tem uma bacia grande ao lado do tan

que. Sirva-se à vontade, disse-lhe a mulher. Gostaria de tomar um café..antes? Foi feito nesse instante. Aceito sim! Pediu licença, dirigindo-se à cozinha. Tomou muita água antes, depois encheu uma xícara. Enquanto tomava, permanecia junto à porta dos fundos, observando o quin-

tal espaçoso. Havia galinhas, patos, marrecos, e um galo índio, ciscando soltos na terra. Crianças

trepadas numa jaboticabeira chupavam os frutos. No horizonte os primeiros sinais da alvorada.

Junto ao tanque uma bacia metálica de bom tamanho. Acabou de tomar o café, colocou a xícara

sobre a mesa e foi à torneira. Abriu-a, esperando alguns segundos até que a agua se refrescasse.

Encheu o cantil e a bacia. A um peão até que não estava tão pesada. Ajeitou-a sobre a cabeça, su-

biu os degraus com cuidado, e, pedindo licença, foi atravessando a extensão. Tal cena causava es

tranheza entre os presentes. Quando chegou na passarela do jardim viu o animal na calçada opos

ta, olhando em sua direção como se esperasse pela água. Cruzou a rua, colocando o recipiente no

chão. Percebeu que o nível do líquido baixava a olhos vistos. Ao término, dois relinchos cômicos

quebraram o silêncio do local. Começava a clarear. Retornou para devolver o objeto, trocou algu

mas palavras mais com a viúva, agradeceu-lhe pela hospitalidade, despedindo-se em seguida. Na calçada um último olhar para o interior: na soleira da porta dos fundos, o galo cantou com tal ím-

peto, que parecia estar querendo anunciar para o resto do mundo...o nascer de mais um dia. Lo-

go depois, um Sr. velho, gordo e careca, envolto em toalha de banho, cruzou o corredor de uma

porta à outra. No jardim, mamangavas entravam e saíam furiosamente dos botões: sem ferì-los.

Já era dia claro, mas perdurava o amarelo das luzes. Deu meia volta e se foi. Quem sabe se prá

sempre.!.?...

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