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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A ÚLTIMA VAIDADE DE JOANNA



Joanna M. de M. , já em leito de morte, pediu que lhe chamassem o perito responsável

pelas investigações, quando do desaparecimento de seu marido, tempos atrás. Como na

época não encontravam a matéria do crime, o processo acabou sendo arquivado.

Rápido! , clamava a anciã. É urgente! Não tardaram, pois, a encontrá-lo. Enquanto lhe explicavam o que ocorria, sua mente embaralhou-se; não conseguia formar idéias.

Levado ao hospital, dois enfermeiros o conduziram até o quarto. Quando a viu teve um

sobressalto; era pele e osso. Joanna pediu-lhe que fechasse a porta e se sentasse bem

próximo. Falava com dificuldade. Chamei-lhe para uma confissão, Sr. Meu marido...

...quem matou fui eu. Questão de honra, talvez. Caso queira, posso lhe contar como tu

do ocorreu; se prá isso ainda houver tempo. Claro que sim, disse o homem. Muito me

interessa seu relato. Por outro lado penso estar sendo muito corajosa essa sua atitude.

Não há mais lugar para coragem; o que há é vaidade. Pois bem, vamos lá...então..

Fulano de tal, meu ex-marido, com o tempo foi se transformando num monstro intratá

vel. Vivíamos sob o mesmo teto, mas há muito havia me abandonado. Envolvera-se

com todo tipo de gente, jogava, bebia, tinha amantes, me agredia; uma vida desregra

da...portanto. Sentia-me um lixo desprezível. Acabei chegando à conclusão que o me

lhor seria por um fim àquilo tudo. Ele saía, voltando quando bem o entendia. Às vezes

ficava fora...dias. Não havia mais consideração, e isso me aborrecia, me revoltava.

Possuíamos um pesqueiro na barranca de um rio não muito distante, como o Sr sabe.

Eu, prá me livrar da clausura, ia pescar. Lá, havia uma casa simples, mas que oferecia

condições básicas, além de certo conforto, como o Sr também o sabe. De vez em quan

do me dava na telha, ficava por lá..dois..até tres dias seguidos. Eu gostava do esporte.

Além de válvula de escape, essa atividade acabou me mostrando o quanto seria útil

naquilo que eu pretendia. Cavocava nos brejos para apanhar minhocas; isca preferida

dos peixes. Quando estes escasseavam, aproveitava para tratar das plantas. Aplicava

lhes adubo regularmente, efetuava podas regulares...e tudo o mais. Não sabia se essa

minha conduta denotava algum interesse em reconquistá-lo. A verdade é que ele iria

pro inferno...mesmo! Estava tudo planejado e a oportunidade não tardaria. Lembra

se da piscina que havia na mansão, não lembra? Sim! , claro, respondeu-lhe. Pois en

tão! Foi ali que o matei! Era uma manhã de domingo. Ele lia uma revista, deitado de

bruços sobre uma uma esteira inflável. Sentada na borda da piscina, movimentei len

tamente a água com as pernas, para trazê-lo à beirada. Quando tal ocorreu, levantei

me. Com uma toalha na mão esquerda e um porrete na outra, camuflado em meio a

uma esteira de fibras, aproximei-me, golpeando-lhe na nuca... O corpo afundou ime

diatamente...já sem vida. Abri os ralos de escoamento e juntei os apetrechos: sacos

plásticos de adubo, previamente preparados, cordéis de algodão umidecidos, tres bis

nagas de cola, serrote, mangueira d'água, esponjas para limpeza, trapos de pano, e

muito sabão. Nua, dentro da piscina, comecei.. serrando-lhe as pernas na altura dos

joelhos e das virilhas, depois os braços, e finalmente o pescoço. Num saco coloquei o

tronco, num segundo, braços..mãos..coxas e o porrete , e no terceiro: pernas..pés e

o serrote. Lambuzei com cola as paredes internas dos sacos..na altura adequada, in

troduzindo em cada um a respectiva bisnaga utilizada, vedando-lhes em seguida as

aberturas..com os cordéis. A cola, de secagem relativamente rápida, logo permitiu

a lavagem externa dos volumes. Limpei rigorosamente todo o interior da piscina...

bem como a mangueira. Demais objetos usados embrulhei-os em plástico mais fino.

Concluído o trabalho, juntei tudo na camionete, em meio a materiais de pesca e ou

tras bugigangas. Logo após fui à cabine de comando, abrindo os condutos de enchi

mento. Duas horas depois tudo voltou à normalidade. Deitei cedo naquele dia. Acor

dando no meio da madrugada, não o vi na cama. Procurei-o por toda a casa..e nada.

Certamente havia saído enquanto eu dormia. Sei lá se com algum amigo ou com al

guma amante!? A porta estava fechada apenas à chave. Os trincos de segurança in

terna apresentavam-se desconectados. Eu, prá me livrar da solidão, fui pescar. Lá

chegando, ainda escuro, cavoquei fundo em diversos pontos do brejo, a fim de con

seguir isca suficiente para o dia todo. Dediquei-me com afinco, capturando vários;

alguns..inclusive..de bom tamanho. Voltei prá casa à noitinha. Ele ainda não havia

retornado, assim como não retornou no dia seguinte, nem nos que se seguiram.

Limpei os peixes, coloquei-os no congelador, e fui tomar banho. Alguns dias depois

comuniquei à polícia aquela ausência fora do habitual. E assim termina a história,

Sr. Penso que teve o fim que mereceu. Por outro lado penso eu estar tendo o meu.

Minutos depois ela falecia.

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