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sábado, 31 de outubro de 2009

DIA DA CAÇA



Fato ocorrido no interior do Amazonas por volta dos anos 60. Lugar selvagem; caça e

pesca abundantes... Um grupo formado por membros de nacionalidades diversas, che

fiado por um russo, praticava o tráfico de peles e animais silvestres, tendo como recep

tadores, quadrilhas de países vizinhos. Viviam embrenhados na selva, alojados em ca

banas. Cada elemento incumbia-se de determinada tarefa: cuidados e guarda dos pro

dutos, preparo dos alimentos, manutenção do armazenamento, limpeza dos casebres,

alem de rastreadores..., e o cabeça: um tal Sergei; franco atirador. Dispunham de apa

rato sofisticado: armas de diversos calibres, lunetas especiais para caça noturna, am

plo equipamento de pesca, etc... Paralelamente, avançada técnica de curtição. E assim

saíam as peles, as penas coloridas, e pequenos animais; indiscriminadamente. Negócio

quase tão lucrativo quanto droga. Matavam onças pintadas, pardas com mais frequên

cia, jaguatiricas. e uma variedade de outros bichos. O mais cobiçado no entanto, a pan

tera negra; essa era mais difícil. Desde que instalados no lugar, apenas uma fôra abati

da, ainda assim, filhote. Quem matou foi o russo. Exibindo-a aos companheiros, na épo

ca, disse-lhes: agora quero a mãe! Sua ambição provocou risos. O tempo passava. Era

uma atividade cansativa, perigosa. Num belo dia, ao cair da tarde, Sergei mais alguns

amigos...localizaram em determinado ponto onde sondavam pela primeira vez, pega

das um tanto diferente das costumeiras. Analisavam calmamente, trocavam idéias,

uns achavam tal coisa, outros outra...Nenhuma definição de momento, no entanto sa

biam não se tratar de onça. Como não tardaria a escurecer, decidiram retornar, conti

nuando as buscas assim que amanhecesse. Partiram aos primeiros sinais da alvorada

Chegando no local notaram pegadas mais recentes indicando nova presença; haviam

descoberto a trilha. Dependendo das condições do terreno, os sinais apresentavam-se

mais ou menos definidos; sempre respeitando a beirada, paralela a qual corria um rio

Pouco adiante o estreito corredor terminava numa área espraiada.

Achamos!...disse o russo, notando na areia marcas de contorno típicas de posições de

descanso. Certificou-se de que o bebedouro era ali, pela disposição das marcas próxi

mas da beira d'água. Ergueu os olhos para a margem oposta; mata virgem, densa.

Em seguida observou o rio: não era muito largo. O primeiro capítulo terminou mais

cedo que esperávamos, disse aos amigos. Amanhã cedinho retornaremos em barcos

para o segundo passo da tarefa. Assim que amanheceu desceram em tres botes, com

o material necessário e ferramentas. Ao chegarem, encostaram antes no espraiado:

novamente pegadas mais frescas. Dirigiram-se à margem oposta, estudando qual a

melhor árvore onde construiriam o jirau. Uma vez estabelecido, puseram mãos à

obra. Pouco antes do escurecer o trabalho estava concluído. Bem feito, bem camufla

do, comportava duas pessoas...comodamente.

Voltariam uma vez mais na manhã seguinte prá checar se as atividades não haviam

interferido nos hábitos do animal. Novos sinais indicaram que não. Pouco antes do es

curecer desceram o russo e um amigo..apenas. No local, esconderam barco e motor

na mata. Em seguida acomodaram-se no tablado. O sol se punha atrás das monta

nhas; não tardaria o cair da noite. Agora só restava aguardar. Com o fuzil no tripé,

o russo examinava as imediações através do campo iluminado da luneta. Nenhum

sinal. Muito cedo ainda, balbuciou no ouvido do companheiro. Seu olhar no entanto

não descansava um segundo. Vasculhava cada centímetro quadrado do terreno.

Até que se fez noite. Em dado instante percebeu algo se movimentando na trilha:

uma sombra lenta e indefinida passava, tapando pequenos espaços existentes na

vegetação. Foi acompanhando pelo visor...até surgir no campo aberto do espraiado

Engoliu seco. Não conseguia acreditar no que estava vendo: uma pantera negra adul

ta. Seus olhos possuíam luz própria; um negócio de assustar! Acomodou-se próxima

do capim, com o olhar voltado para o rio. Não era o momento certo. Sergei aguarda

va. Haveria que descer à água. Após algum tempo, levantou-se, indo em direção ao

bebedouro. Acompanhou-a, ao mesmo tempo recuando o dedo indicador até o fim

do primeiro estágio. Assim que permanecera estática, enquadrou o ponto a ser atin

gido e acionou o gatilho. Notou que o disparo não havia sido fatal. Instantaneamen

te viu-a evadindo-se com certa dificuldade. Tentou um segundo tiro, mas já era tar

de; não estava mais à vista. Talvez um leve movimento dela na hora "h" ou algum

problema com a precisão da arma frustrara o resultado. Mas havia sido duramente

ferida, pensou o russo. Não creio que vá longe, disse ao amigo. Me pareceu ter sido

atingida na omoplata. Por ora só nos resta aguardar o amanhecer. E não tardou. Já

dia claro, desceram do jirau, colocaram o barco n'água, e, no remo, cruzaram o rio.

Soltaram a âncora um pouco afastado da margem. Observavam atentamente o lu

gar. Havia várias manchas de sangue na areia e em direção à trilha. Fugira por ali.

Ergueram o peso, remando em seguida rio acima, sempre à certa distância da mar

gem. A uns vinte metros, onde a falta de vegetação permitia, tornaram a notar si

nais de sangue. Continuaram subindo sem no entanto perceberem algo mais de no

vo. Voltaram ao ponto onde as marcas apresentaram-se pela última vez. Analisan

do atentamente, notaram que ali, o início da vegetação mata adentro, mostrava le

ve amassamento. Não há dúvida, disse Sergei. Ela entrou aí. No seu lugar eu aban

donaria a causa, disse-lhe o amigo. É muito perigoso! Pode estar morta como pode

estar amoitada. Esse trem é o diabo...quando ferido. E não se esqueça que ela está

na casa dela. Está na casa dela mas está furada, Emílio. Eu estou inteiro. Não pos

so recuar. Ainda que me custe a vida, entrarei. Reavalie, Sergei! Desça ao espraia

do, Emílio. Estou disposto a decidir isso já. Acatando a ordem, o amigo desceu. No

ponto exato pressionou o bico da proa contra o barro da margem, parando o bote.

O russo engatilhou a arma, saltando à areia. Voce fica aí, disse ao companheiro. E

se afaste da beirada prá não correr risco. Logo após observou o terreno. Viu que

as manchas afunilavam-se em direção à trilha. Começou a seguí-las lentamente..

Não havia andado ainda cinco metros. Da beira do mato a fera investiu sobre ele

sem erro. Em meio a rosnados infernais, atacou-lhe no rosto. Com as garras, tru

cidava a vítima, fazendo-a em pedaços. Ao presenciar a cena o amigo zarpou.

Chegando ao acampamento contou o que vira. O corpo está na trilha, se é que

não o devorou!? Desta vez não irei! Um pequeno grupo desceu em dois barcos.

Vendo o estado em que se encontrava o corpo, acharam melhor deixá-lo por lá

mesmo... E assim termina o dia da caça.

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