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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

ANA TRAGÉDIA HUMANA



Por culpa própria, uma velhice sem ter com que se distrair. Praticamente cega,

esqueceu-se. Passagem em branco, sem sonhos, sem caprichos, sem sentido....

Existência fútil, sem ideal, futuro vazio, de espera...apenas.

Recebia miserável pensão deixada pelo marido. Morava numa propriedade anti

ga. Externamente havia um pequeno quintal, e um corredor calçado...ligando a

uma porta dupla. Em seguida a escada, conduzindo a dois cômodos. Na metade

do curso fazia uma curva, em frente a qual uma vidraça fixa, disposta vertical

mente em forma de retângulo, dava boa visão do céu. Certa noite, aos sinais de

tempestade, saiu no quintal à procura de seu estimado: um bonito gato de pelos

cinza azulado e olhos cor de verniz. Ao ve-la, veio logo em sua direção. A água

despencou de repente. Maldizendo sua lentidão, a velha molhou-se toda até che

gar ao pé da escada. Tentou fechar a porta mas a força do vento a impediu. As

partes batiam desordenadamente. Pos-se a subir os degraus. O animal a acom

panhava, seguindo por sobre o corrimão. Descalça, descabelada, já na altura da

curva, o clarão de um relâmpago mostrou sua fisionomia esbranquiçada, olhos

imóveis, sem cor, superfícies úmidas...dando-lhes um brilho morto. No mesmo

instante uma aranha surgiu à frente do gato; com o susto, encolheu-se, soltando

um grunhido de pavor. Chegando ao quarto, trocou de roupas, sentando-se nu

ma poltrona. Adormeceu e sonhou. Encontrava-se no espaço, ao lado de uma

mesa não muito larga mas bem comprida. Coberta por toalhado vermelho, so

bre o qual dispunham-se pratos, talheres, taças de cristal, etc... Nas laterais ali

nhavam-se cadeiras estreitas de encosto alto. De um lado do ponto central, uma

mulher, em pé, sustentava um recém-nascido, nu, nos braços estendidos, como

se o oferecesse ao homem sentado a sua frente. Era alto, forte, fisionomia estra

nha. Ana olhava a cena. Instintivamente abaixou-se, dirigindo o olhar para os

pés da mulher. Estava descalça. Eram pés estreitos e compridos. Em lugar de

unhas, garras felinas. Ao erguer-se, Ana bateu a cabeça na extremidade da me

sa, fazendo com que algumas taças se quebrassem. O som vibrou no espaço.

Acordou com o gato arranhando-lhe os pés.

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